O Instante Fraturado

Saquear do cotidiano seus objetos e os delicados desejos, os pequenos devaneios implicitamente a eles associados.  É desse modo que Anna Paola Protasio vem construindo sua poética.

Nesta instalação, são bicicletas. Bicicletas que anseiam estabelecer o contínuo do tempo e do espaço, atravessar paisagens, conectar caminhos ou tocar limites.  Por isso são vermelhas e é também o vermelho que abraça os corpos-imagem que pedalam nos vídeos. Este se situa no limite visível do espectro luminoso: são os vermelhos que possuem os maiores comprimentos de ondas de luz perceptíveis ao olho humano. Seria possível alongar uma onda de luz ao infinito?

Mas algo vem deformar o plácido passeio pelos dias e pelas horas. O tempo nesta instalação estabelece sutis relações com as salas expositivas que a abriga. Se o espaço se conecta virtualmente pelas duas projeções nos extremos das salas, estendendo e invadindo o extra-campo da imagem, ele também fatia o ansiado contínuo temporal. Nesse corte, é como se o instante se debatesse entre a distensão e a fratura, entre o movimento e o repouso, entre a flecha e o vôo.

E o desejo de pedalar pelos extremos dos mundos, tocar o limite dos espectros, devolver a cauda à boca da serpente do Uróboro, cede naquela suspensão. Debatendo-se entre antigos e inquietantes paradoxos.

Marisa Florido César, 2010

”Instante Fraturado” , numa visão de físico

Talvez o gênio de Albert Einstein tenha sido o que mais se dedicou a entender a relação entre espaço e tempo na natureza, incorporando o espaço quadri-dimensional em nossa  língua e cultura. Suas teorias, da relatividade restrita e geral, mudaram o conceito de tempo e espaço absolutos. Esses conceitos nos parecem estranhos pois são distantes da escala do nosso dia-a-dia e requerem um ferramental analítico e matemático sofisticado para bem compreendê-los. Diversos livros foram escritos para ilustrar essas ideias ao público geral.  Na ficção quase poética de “Einstein’s Dreams”, Alan Lightman  nos conduz por sonhos que o jovem Einstein poderia ter tido nos meses anteriores à sua descoberta da Teoria da Relatividade, imaginando diferentes maneiras de como o tempo poderia passar em diferentes universos. Junto com a Relatividade, a Mecânica Quântica nos trouxe conceitos ainda mais difíceis e fantasmagóricos, como a não-localidade, o tunelamento e a teleportação. São teorias de bastante sucesso – contra testes experimentais – e que nos permitem uma gama de aplicações práticas: do transistor – e assim toda a eletrônica e computação – ao laser, ressonância nuclear magnética, e GPS. 

A   instalação “Instante Fraturado” de Anna Paola Protasio fala imediatamente ao nosso sentimento sobre o tempo – o antes, o agora, e o depois – misturado no mesmo e outros espaços. Ela atiça a mente com a noção de causalidade, da seta do tempo e a 2a lei da termodinâmica, e ainda remete ao tunelamento. Ela instiga e ao mesmo tempo traz um certo conforto, num reconhecimento tácito desses conceitos. Nada melhor do que o uso da bicicleta para representar o conhecimento “tácito”: simplesmente aprende-se a andar de bicicleta sem contudo se poder traduzir em palavras esse conhecimento. “Instante Fraturado” primeiro dá um nó na sua cabeça e depois traz a sensação de “eureca!”, uma ponta de compreensão tácita e questionamento dos conceitos de causalidade, tunelamento, teleportação, e da intricada relação espaço-tempo. Hoje, especulamos sobre universo-espelho, multiversos, e até um outro universo todo de antimatéria distante de nós. Será? A arte e a ficção sempre foram grandes aliadas da ciência nessa busca ao manter viva a chama da possibilidade do “diferente” e de comunicar essas ideias, algo bem vivo na arte de Anna Paola.

Cláudio Lenz Cesar
Professor titular de Física – UFRJ, PhD pelo MIT, pesquisa a antimatéria no CERN